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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Língua e Literatura

Profª Dra. Olgária Chain Féres Matos

O Instituto nacional da saúde e da pesquisa médica[1], em um estudo inspirado na classificação norte-americana dos “desvios de atenção” ou “hiperatividade na infância, alojou-os na patologia “perturbação de conduta”. Os trabalhos sobre a dificuldade de concentração se inscrevem, de certo modo, na maneira pela qual esta é mobilizada pelas novas tecnologias da informação ( que já constituem uma forma de educação) e, por isso, ela é tomada, fundamentalmente, como “mercadoria”. Isto significa o cálculo, por parte das emissoras, do que denominam “tempo cerebral disponível”, tanto mais valorizado quanto a atenção pode ser perfeitamente controlável, para uma audiência de televisão. A mesma pesquisa, embora não fosse seu alvo, reconhece que captar a atenção destrói não só a atenção quanto a própria capacidade de “poder ser atento”, sublinhando que a primeira questão que se apresenta na gênese dessa patologia é a da linguagem. Como “ circuito de trocas simbólicas”, a perturbação em seu desenvolvimento “entrava o começo de uma boa sociabilidade, interfere na qualidade da comunicação e favorece a expressão de reações defensivas da criança”.
A língua é, por sua natureza, um meio simbólico de associação que constitui e exprime singularidades, no sentido em que a livre circulação da palavra supõe cada um tomando a palavra como ato personalíssimo—o que requer a atenção entre quem fala e quem escuta. A língua--medium de individuação e de intersubjetividade—é modo de associação e participação, cuja quintessência foi a polis clássica. Esta consistiu na decisão política e intelectual, levada a termo por Clístenes, de transformar uma população--dispersa em um mesmo território-- em povo, em identidade coletiva, em pertencimento a um destino comum. No compartilhamento de esperanças e valores dignos de renome e fama, havia a elaboração de um Ideal de Ego que, na sociedade, se estabelece como Super-Ego, como costumes, ética e moral. As leis de Clístenes agora favorecem reunir-se a outras pessoas, fora do âmbito restrito e familiar, a objetos de afeto, ternura, admiração e sublimação que são o demos e a philia: “a sociedade grega”, escreve Bernard Stiegler, “constituiu-se pela socialização participativa da escrita alfabética, como técnica de memória e trocas simbólicas. É pela prática desta técnica que se realiza o cidadão-- e de maneira tal a modificar a relação com a língua que se torna assim um logos—como cidadão, isto é como sujeito de direitos”.[2]

[1] Trata-se do Instituu national de la santé et de la recherche médicale(Inserm), dossiê publicado a 22 de setembro de 2005.
[2] Cf.La Télécratie contre la Démocratie,ed Falmmarion, 2006, p 33.

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